Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Reflexão. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de maio de 2012

É possível obrigar um pai a ser pai? Por Eliane Brum


Um texto longo e altamente reflexivo, vale à pena ler até o final.

Na semana passada, o Superior Tribunal de Justiça tomou uma decisão inédita no Brasil: determinou a um pai o pagamento de R$ 200 mil por “abandono afetivo”. Antonio Carlos Jamas dos Santos, empresário do ramo de combustíveis de Sorocaba, no interior de São Paulo, terá de pagar à sua filha, Luciane Nunes de Oliveira Souza, professora da rede municipal da mesma cidade, por sua ausência como pai. Na sentença, manchete da maioria dos jornais brasileiros de quinta-feira (3/5), a frase lapidar da ministra-relatora do caso, Nancy Andrigui: “Amar é faculdade, cuidar é dever”. Nos dias posteriores, Luciane deu entrevistas, em que chorou muito pelo abandono, assim como comemorou a vitória dos filhos abandonados do Brasil, representada pelo seu triunfo no tribunal. Minha pergunta: é possível – e desejável – que um pai seja condenado por falta de afeto? 
Apesar da frase de efeito da ministra, é disso que se trata. Este pai, agora condenado, pagou uma pensão para a filha até os 18 anos. Portanto, deu as condições materiais para o seu sustento, o que é garantido pela legislação brasileira há muito e não está em discussão. Se o valor era abaixo das necessidades concretas da filha e abaixo das possibilidades concretas do pai, esta é uma falha de quem arbitrou a pensão – uma falha da Justiça, portanto.  
Estou rodeada de pessoas que acreditam que seus pais não lhes deram o afeto que mereciam. Acho mesmo que boa parte das pessoas acha que seus pais são deficitários no quesito afeto e no quesito presença. Da mesma maneira que, se fôssemos perguntar aos pais – e também às mães –, boa parte deles compartilha da convicção de que são abandonados pelos filhos. Mas esta, decididamente, não é a hora dos pais. Os filhos reinam absolutos nesse momento histórico, com o apoio irrestrito do Estado. 
Se os pais derem uma palmada em uma criança, logo estarão cometendo uma infração. O Congresso prepara-se para determinar que palmadas são inaceitáveis como método educativo. Se a conclusão for a de que os pais não amaram bem, a Justiça pode obrigar os pais a indenizar os filhos com o valor equivalente ao de um apartamento. Em breve, suponho, teremos mais novidades na vigilância dos pais pelo Estado. E não estou sendo irônica. É para esse mundo que temos caminhado. E é preciso perceber que temos dado sempre um passo além. Em minha opinião, além do bom senso. 
Se um pai espanca um filho ou qualquer pessoa espanca uma criança, já existe lei para punir esse ato bárbaro. Mas, não, em vez de aprimorar as ações de prevenção e tornar mais eficiente a repressão, considera-se necessário criar mais uma lei e punir também a palmada. Se um pai não garante as condições materiais para assegurar educação, alimentação e casa para um filho, também já existe lei para obrigá-lo a cumprir o seu dever. Mas agora é preciso ir mais adiante, é necessário punir também a falta de afeto. 
Coloco essas duas questões – a da “palmada” e a do “abandono afetivo” – no mesmo texto, porque, ainda que venham de instâncias diferentes do Estado, elas me parecem emblemáticas dos novos tempos que vivemos. E tenho dúvidas se refletimos o suficiente sobre o que estamos fazendo ao achar aceitável que o Estado entre na casa das pessoas e julgue o subjetivo. Tudo isso vem embalado “em nome do bem”. Mas me parece que “o bem”, assim como “as boas intenções”, tem trilhado caminhos estranhos. 
Como um juiz pode determinar o que é “abandono afetivo” em uma relação complexa como a de pais e filhos? E por que o Estado deveria fazer isso? E por que deveríamos achar legítimo que o faça? 
Não tenho dúvidas de que Luciane sofreu. E desconfio que seu pai também pode ter sofrido. E gostaria que o sofrimento de ambos jamais tivesse se tornado público, porque acho que isso deveria seguir sendo tema do privado – longe da mão do Estado e longe dos holofotes. Mas, como abri a porta do meu apartamento na semana passada e me deparei com o rosto de Luciane no jornal, é preciso pensar sobre isso. 
As imagens de Luciane, com sua expressão sofrida e chorosa, mesmo quando sorridente, provocam-me aflição. Porque é uma mulher de 38 anos, mãe e professora, dizendo coisas como: “Desde que eu nasci, meu pai nunca me quis!”. Eu facilmente poderia ver essa frase na boca de uma adolescente falando com as amigas num bar ou no pátio da escola. Mas, em uma mulher adulta, essa queixa – e uma queixa pública, com acolhimento público – me causa estranheza. Como se estivesse fora de lugar, deslocada no tempo de uma vida. 
Luciane se coloca numa posição infantilizada. E me parece que ela encarna a posição infantilizada na qual todos nós nos colocamos ao permitir que o Estado legisle e arbitre sobre como devemos amar ou como devemos educar um filho. Como se jamais nos tornássemos adultos, na medida em que precisamos de um Estado-pai para nos dizer o que fazer. Um Estado que cada vez mais se arma do direito de entrar dentro das nossas casas e determinar como devemos viver.
São tempos curiosos. E o mais curioso é que a tese do “abandono afetivo” seja acolhida na mesma época em que a família já não é mais aquela. Nem sempre o pai biológico é aquele que assume a função paterna. Ou a mãe biológica é aquela que desempenha a função materna. As combinações, hoje, são as mais variadas. E nem sempre o pai que paga as contas é o pai que busca na escola, coloca a criança no colo, conta histórias antes de dormir, repreende um deslize ou conversa sobre a iniciação sexual da filha ou do filho. Pode ser – e pode não ser.
A função paterna pode ser assumida pelo padrasto, por um tio, por um irmão mais velho, pelo avô ou mesmo por uma mulher, em um casamento gay. E o mesmo acontece com a função materna. Para ser pai ou mãe, não basta gerar uma criança, é preciso “adotá-la”. E isso vale também para os pais biológicos. E nem todos conseguem ou desejam fazê-lo. Quem desempenha a função paterna ou a função materna é aquele que gerou uma criança e “adotou-a”. Ou aquele que adotou uma criança e “adotou-a”. São dois atos – e não um. E o segundo é mais difícil, demorado e cheio de percalços. 
Que o pai biológico de Luciane se responsabilize ou seja responsabilizado pelo sustento material da filha ninguém discute. Mas não é possível obrigá-lo a ocupar a função paterna no sentido mais amplo e subjetivo. Não há como obrigar ninguém a ser pai ou mãe no sentido pleno. Se o Superior Tribunal de Justiça acredita ter esse poder e, para exercê-lo, bastaria obrigar um pai a pagar um valor em dinheiro, está completamente equivocado.  
Todos nós temos de lidar com o que consideramos ausência ou falta de afeto, em várias medidas ao longo da vida. Faz parte da complexidade das relações humanas. E faz parte do humano do nosso tempo acreditar que nunca é amado o suficiente – não só pelos pais, mas pelos filhos, pelos namorados, pelos maridos e pelas esposas, pelos amigos, pelo mundo inteiro. 
Temos de lidar com as faltas inerentes a qualquer vida da melhor forma que conseguirmos – e lidar com isso significa crescer. E crescer significa parar de choramingar e seguir adiante. Acho grave que a Justiça considere legítimo cristalizar essa mulher adulta no lugar de vítima e de menina abandonada. E congelar esse homem no lugar de pai ausente e de algoz. A vida é mais complicada do que isso. E um juiz tem o dever de compreender isso. As implicações públicas da decisão do STJ, na minha opinião uma decisão desvairada, ecoarão na vida de todos nós. 
Em entrevista à rádio CBN, a ministra Nancy Andrighi afirmou que a decisão do STJ “analisa os sentimentos das pessoas”. Se analisa, ministra, errou. Não cabe ao STJ ou qualquer tribunal analisar “sentimentos” e desferir punições pela ausência ou excesso de “sentimentos”. Isso colocaria os juízes em lugar bastante indevido.
A ministra também disse: “Não se pode negar que tenha havido sofrimento, mágoa e tristeza, e que esses sentimentos ainda persistam, por ser considerada filha de segunda classe". Alguém conhece uma vida ou mesmo uma relação entre pais e filhos que não tenha sofrimento, mágoa ou tristeza mútuas? Como é que uma juíza pode comprar a versão de filha de “segunda classe” de uma forma tão barata? 
A ministra ainda disse mais: "Todo esse contexto resume-se apenas em uma palavra: a humanização da Justiça”. Pelo contrário, me parece que a decisão ignora justamente a complexidade e a ambivalência das relações humanas. E desumaniza, ao compensar afeto com dinheiro – o que também é mais um dado interessantíssimo da nossa época de relações monetarizadas. 
Luciane, por sua vez, afirma que não sente “raiva ou mágoa” do pai. Só quer “justiça”. Se colocar o pai no banco dos réus e dizer ao país inteiro que ele é um pai ausente, relatando suas desventuras nos mínimos detalhes, não é uma vingança monumental, eu não sei o que é. Mas que Luciane busque isso, podemos até compreender. Que um tribunal legitime a vingança é que é surpreendente. O que poderíamos estar nos perguntando, neste momento, é: como a gente faz para alertar um juiz por “abandono da razão”? 
Na Folha de S. Paulo do último sábado (5/5), há duas fotos de Luciane: uma segurando um retrato dela quando bebê, no colo da mãe; a outra vestida de caipira na escola. São fotos comoventes e também são fotos escolhidas para comover – o que me faz ficar ainda mais aflita por ela. As duas fotos, assim como seu discurso, parecem dizer: “Pai, veja como sou ‘amável’”. Ou: “Brasil, veja como sou ‘amável’. Por que este homem mau não quis me amar?”. Parece que é isso que Luciane foi buscar na Justiça: a comprovação, pelo Estado, de que ela é ‘amável’, o pai é que falha. E continua, tristemente, tentando chamar a atenção do pai.
O problema é que dificilmente Luciane conseguirá seguir adiante, paralisada como parece estar no mesmo lugar simbólico. E mais difícil será agora que o tribunal a acompanha na ilusão de que é possível obrigar um pai a ser pai. Ou obrigar um pai a amá-la. E não há dúvida de que ela sofre muito com tudo isso. Tornar-se adulto, porém, é descobrir que o baralho nunca estará completo, que nem mesmo existe um baralho completo. Temos de jogar com as cartas que temos. E tentar recuperar cartas que jamais existiram, como se elas estivessem apenas perdidas, não nos ajuda a viver melhor. Apenas nos congela em um lugar infantil.
É um caso fascinante pelo que revela sobre o nosso tempo. E há bem mais ainda para se ver nele. Por enquanto, ainda queria lembrar que, às vezes, o melhor que pode acontecer a um filho é que certos pais e mães fiquem bem longe. 
Eliane Brum
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.  elianebrum@uol.com.br - Colunista da Revista Época.
Foto: reprodução


Vai ou Racha - Por Silmara Franco

Ilustração: Adreson Vita Sá
Mega fã do Blod da Silmara Franco - começo a semana assim, dando risada da vida real, me diverti e concordei com a querida Silmara. Olha só.

Vai ou Racha


Nada deve ser mais ocultado num casamento que calcanhar rachado.
É preferível revelar o que aconteceu naquela viagem a Porto Seguro quando vocês ainda namoravam, fornecer detalhes da república onde você morou no tempo de faculdade, falar das suas vadiagens adolescentes e até confessar que já beijou uma mulher, a expor na relação um par de calcanhares prejudicados. Será o fim. Restará, apenas, decidir quem fica com a Nespresso.
Antes seu marido descobrir que não foi você a autora do salmão ao molho de gengibre que o conquistou no primeiro jantar na sua casa, que você espia o Facebook do sócio dele todo dia e que aquele vestido não custou cento e cinquenta reais, do que vocês terem uma noite de amor interrompida por um carinho, digamos, mais cortante sob os lençóis. Pior: ter que explicar por que namora sempre de meia soquete.
E a culpa é toda sua. Passa o verão metida em rasteirinhas, anda descalça pelo quintal curtindo sua fase natureba de “conexão com a terra”, capricha no hidratante da região superior e negligencia a inferior. Pensa que só as formigas e seres rastejantes notam seus pés e que semiárido é somente uma região do nordeste. Não, querida. Passível de justa causa, sola de pé desertificada tem peso dois em relação à celulite. Depois não reclame. Nem chore de saudade dos tamancos e dos sapatos Chanel.
Se o problema lhe assolar, mantenha o segredo a sete chaves (e jogue todas fora). Veja o que aconteceu a Aquiles. Em períodos de seca, para poupar o relacionamento e a palmilha dos seus calçados, lance mão de tudo que disserem para você fazer. De simpatias a receitinhas caseiras – sempre escondida, na calada da noite. Invista uma grana preta naquela dermatologista que não atende nenhum convênio. Faça promessa para Santa Rita, a das causas impossíveis. Se nem ela topar, peça emprestado ao marceneiro de sua confiança a lixadeira e a politriz. Recorra ao SUS.
Ou vai, ou racha.

sábado, 21 de abril de 2012

Na CPI do Amor, a casa sempre cai. Por Xico Sá.


Não, amigo, não me refiro ao hit político da hora: “Meu amor é… cachoeira – lembra?-, clássico do Ronnie Von, nosso mais elegante cavalheiro desde a Jovem Guarda.

Trato de um outro tipo de investigação. O da lama amorosa.

Legítima hacker do amor, a amiga F. entrou na caixa postal do correio eletrônico do marido. Ih, lá vem a mesmíssima história, esse legítimo Hitchcock dos lares doces lares.

Suspense seguido de terror em preto e branco.
Pra completar, a senhorita F. deu uma sherlockadazinha também no celula, de leve, enquanto o cara via lesadamente o Corinthians na Libertadores.

Entre cantadas e semi-cantadas ou apenas bobagens virtuais,  a amiga entrou em desespero,gritou, berrou, imitou o quadro do Munch, discutiu a relação por uma semana, e quase acaba com aquela vida sob o mesmo teto.

Em tempo: era o casal exemplar para todo o grupo de amigos. Sobre a cabeça do canalha havia uma auréola que lhe conferia quase a santidade no seu distrito.

O maridão não havia cometido nada demais. Apenas pecadilhos do varejo do sexo e deslizes, por puro amostramento, nas redes sociais.

Foi o bastante para uma baita crise. Quase uma ruptura. Além de ter deixado a xícara amorosa trincada para os próximos cafés.

Por estas e por outras é que não é nada recomendável quebrar o sigilo postal do companheiro ou da fofolete. Corra, Lola, corra.

Ora, quem, entre nós, resistiria a meia hora de quebra do sigilo amoroso ou sexual?

Como na arrecadação de recursos para campanhas eleitorais, todo mundo, até mesmo no mais escondido dos conventos de devotas beneditinas, já teve o seu passado que condena, o seu “caixa 2” do desejo.

Em pensamentos, atos ou omissões, tanto faz. Em telefonemas, emails ou declarações bêbadas na madruga. Nos chats, entonces…

Ninguém resiste a meia hora de quebra de sigilo. No amor, somos todos, em alguma ocasião, corruptos. Em maior ou menor grau, todos cometemos os nossas deslizes.

Menos naquela hora em que a paixão por alguém nos toma 100% do cérebro e a febre amorosa é capaz de quebrar termômetro.

As despesas com jantares à luz de vela denunciariam os amantes pelo cartão de crédito ou no extrato para simples conferência. Os porteiros de prédios e motéis seriam os mais perseguidos dos depoentes. A melhor amiga ou o melhor amigo, estas instituições supostamente vestais, também seriam convocados a depor.

Na CPI do amor sobraria até para o entregador de pizzas, que também sabe muito sobre os segredos de alcova.Por estas e por outras, melhor abafar o caso, amor, passa o orégano.

Xico Sá

Foto: reprodução

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Só o homem feio é feliz - Saiba como. Por Xico Sá

Xico ( meu colunista preferido na UOL), você faz a vida ficar beem mais divertida. Te amo!

Só o homem feio é feliz - Saiba como

Vejo aqui na capa do UOL uma solene pergunta: “É possível ser feliz mesmo se achando feio?”

Cuma assim?, tiro onda com a Gal, a cachorra da linda vizinha que me sorri latindo.
Ora, só é possível ser feliz –se é que a felicidade é coisa terrena- sendo feio.
Todo galã é triste.
Toda deusa é moralmente atordoada e maluca.

Só sei que esta indagação sobre estética e felicidade mexeu comigo. Sempre em defesa dos feios, sujos e malvados, saquei de novo o meu panfleto a favor da categoria.

Dez coisas que um homem feioso deve saber para tirar mais proveito da vida, essa ingrata:

I) Que a beleza é passageira e a feiúra é para sempre, como repetia o mal-diagramado Sérge Gainsbourg –o francês que só pegava mulher fraca, como a Brigitte Bardot e a Jane Birkin, entre outros colossos. Sim, aquele mesmo francês cabra-safado autor do maior hino de motel de todos os tempos, “Je t´aime moi non plus”, claro.

II) Que as mulheres, ao contrário da maioria dos homens, são demasiadamente generosas. E não me venha com aquela conversinha miolo-de-pote de que as crias das nossas costelas são interesseiras. Corta essa, meu rapaz. Se assim procedessem, os feios, sujos e lascados de pontes e viadutos não teriam as suas bondosas fêmeas nas ruas. Elas estão lá, bravas criaturas, perdendo em fidelidade apenas para os destemidos vira-latas.

III) Que o feio, o mal-assombro propriamente dito, saiba também e repita um velho mantra deste cronista de costumes: homem que é homem não sabe sequer a diferença entre estria e celulite.

IV) Que mulher linda até gay deseja e encara, quero ver é pegar indiscriminadamente toda e qualquer assombração e visagem que aparecer pela frente.

V) Que homem que é homem não trabalha com senso estético. Ponto. Que não sabe e nunca procurou saber sequer que existe tal aparato “avaliatório’’do glorioso sexo oposto.

VI) Que as ditas “feias” decoram o Kama Sutra logo no jardim da infância.


VII)  Que para cada mulher mal-diagramada que pegamos, Deus nos manda duas divas logo depois do enlace.

VIII)  Que mulher é metonímia, parte pelo todo, até na mais assombrosa das criaturas existe uma covinha, uma saboneteira, uma omoplata, um cotovelo, um detalhe que encanta deveras.

IX) Que me desculpem as muito lindas, mas um quê de feiúra é fundamental, empresta à fêmea uma humildade franciscana quase sempre traduzida em benfeitorias de primeira qualidade na alcova, como o melhor sexo oral do planeta, para não esticarmos demais a prosa.

X) Saiba, por derradeiro, irmão de feiúra, que a vida é boxe: um bonitão tenta ganhar uma mulher sempre por nocaute, a nossa luta é sempre por pontos, minando lentamente a resistência das donzelas.

Porque, meu bem, como diz o meu amigo Conde do Brega, ninguém é perfeito e a vida é assim."

Xico Sá

Coluna "Modos de Macho, Modinhas de Fêmea e outros Chabadabadás" 



sábado, 24 de março de 2012

Uma canção, uma reflexão.





A vitalidade é demonstrada não apenas pela persistência, mas pela capacidade de começar de novo. Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha. - Confúcio -









Chris Martin - amo você. 
Rs.






domingo, 18 de março de 2012

Um gole com Fernanda Young - Sobre o Tempo

Tempo tempo. Cada um tem o seu.




"Ao tempo perdido"

“Onde você foi parar? Como que você some assim, de repente, sem avisar? Por onde você escapou, que eu não vi? Contava com a sua presença para fazer algumas coisas, que adoro, mas para as quais não me sobra mais nem um minuto.Dizem que o tempo perdido não volta jamais, no entanto custo a acreditar que você seria capaz de me largar dessa maneira depois de tudo que vivemos. Será verdade que o tempo é cruel? Terão sido em vão os lindos momentos que desperdiçamos juntos? As horas e horas pensando besteiras, com minhas intermináveis elucubrações?

É, quando se é jovem, o tempo que se perde não faz tanta falta. Você passava e eu nem ligava. Agora, corro atrás de cada instante que, um dia, joguei fora sem dar a devida atenção.Querido tempo, queria muito que você voltasse. Poderíamos ir a um cinema, jantar fora, passear à toa pelas calçadas. Com o tempo ao seu lado, a vida definitivamente fica mais fácil.Sei que você não pára, que também está sempre na correria, como eu, contudo não perco a esperança de ainda ter você inteiro, só para mim. Vejo, no espelho, as marcas que você me deixou, e muitas outras delas quero ter antes de a morte chegar.O que posso prometer para que você retorne? Que eu vou aproveitar você melhor? Que vou dar mais valor às suas sábias lições? Que não te perderei mais por bobagens?Ajoelho-me diante de você, inestimável tempo, e juro: nunca mais vou vacilar contigo, pois sei que todos te querem e desejam. 

As mulheres mais lindas e os homens mais ricos perseguem você por todos os lugares, oferecendo de tudo para ter mais um pouco de sua companhia.Tudo gira em torno de você, tempo, eu sei. Poetas te cantam, gênios te estudam, líderes te seguem. E eu continuaria dias e dias tecendo as mais belas considerações a teu respeito, mas temo que estaria perdendo ainda mais de você fazendo isso.

Devo, entretanto, avisar que não pretendo te esquecer nem deixar você em paz. Pode correr, pode fugir, que vou em busca de você, onde estiver. Cancelarei compromissos, emendarei feriados, mas tenho certeza de que te encontrarei de novo. Nem que seja por um só segundo. 

Quem sabe, então, quando estivermos frente a frente, verei que você não se foi em vão, que foi porque tinha mesmo de ir, passando em silêncio como o tempo deve passar.E que, na sua falta, não o terei perdido, porém eternizado.” 

F.Y

Foto: reprodução

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um gole com Fernanda Young

Obrigada pela sintonia refinada, Si Collet... só porque a gente se entende e ponto. Um beijo linda!

"A verdade é que me enchi, De você, de nós, da nossa situação sem pé nem cabeça. Não tem sentido continuarmos dessa maneira. Eu, nessa constante agonia o tempo todo imaginando como você vai estar. E você, numas horas doce, noutras me tratando como lixo. Não sou lixo. Tampouco quero a doçura dos culpados, artificial como aspartame.
Fico pensando como chegamos a esse ponto. Não quero mais descobrir coisas sobre você, por piores ou melhores que possam ser.
Assim, chega. ( ... ) Chega de climas, de choros, de silêncios abismais. Para quê, me diz? O que, afinal, eu ganho com isso? A companhia de uma pessoa amarga, que já nem quer mais estar ali, ao meu lado, mas em outro lugar?
Sinceramente, abro mão. Vou atrás de um outro jeito de viver a minha vida, já que em qualquer situação diferente estarei lucrando.
Bom é isso…"

 F.Y

Foto: Reprodução


.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Dez dias sem televisão - Por Denise Fraga


Me contaram a respeito da experiência feita por uma escola americana que propôs aos alunos e aos seus pais passarem dez dias sem tela. Nada de TV, computador, celular ou videogame, nada que contivesse o tal quadradinho mágico que nos deixa de boca aberta mergulhados no lado de lá. Interessante, né? Ficar sem o lado de lá? Se em nossos dias rápidos, uma tarde com o celular quebrado já se torna uma experiência transgressora, dez dias sem tela podem realmente causar consideráveis mudanças em uma comunidade.

O maior retorno dado à escola pelos alunos foi que houve mais conversa. Bons americanos, os idealizadores do projeto tinham até se dado ao trabalho de fazer uma lista de sugestões de atividades para a família nesses dias impossíveis, tais como aprender a tocar um instrumento ou organizar uma faxina comunitária. Mas o que a comunidade mais estava sedenta de fazer, ficando só do lado de cá, era mesmo conhecer seu pai, seu irmão, sua mãe e talvez até a si mesmo num simples bate-papo na mesa do jantar. 

Não é fácil, porém, ficar sem nossas telas e acho que já estamos até caindo numa conversinha velha, dizendo todo o tempo como isso é um absurdo e coisa e tal com nossos rostos se azulando cada vez mais. Vamos combinar: é um mundo sensacional, faz parte da nossa vida, ponto. Só sinto que precisamos virar a página e tomar as rédeas dessa peregrinação pelo mundo mágico e caleidoscópico da virtualidade, escolhendo delicadamente ao que vamos dedicar nosso precioso tempo.

Nosso Pedro não liga pro computador, saracoteia vez ou outra pelo videogame, mas simplesmente não consegue mais ter um intervalinho entre uma coisa e outra sem ligar a televisão. Como toda mãe, comecei a me incomodar. “De novo na televisão, Pê?!” Mas, como já comentei nesta coluna, sou uma mãe com muita memória de filha e sempre que faço o pequeno desligar a TV, penso no quanto adorava as tardes, mesmo que ensolaradas, em que eu e meu irmão fechávamos as cortinas e nos trancávamos no quarto escuro na frente da televisão.No quanto as imagens que tenho nos arquivos de meus miolos se devem aos Flintstones, aos Waltons, ao Zorro, ao Batman, Jeannie é um Gênio, Perdidos no Espaço, Tom e Jerry, Mary Tyler Moore, Vila Sésamo e, principalmente, a todos os filmes que vi na Sessão da Tarde.

Observo o que Pedro tem visto e, realmente, a maioria das vezes, tenho é vontade de sentar junto. Pedro está escolhendo muito bem o que ver no meio daquela confusa infinidade de canais. É excelente desenhista e, pelos desenhos que faz, vejo que a TV lhe supriu de boas imagens e ajudou sua compreensão humana. 

Na verdade, acho que tem muita coisa boa na TV e na internet, desde que lustremos com afinco, dia a dia, nosso critério de escolha. Até pra escolher desligar o aparelho para simplesmente conversar. E ainda, munidos de tudo que vimos em nossas constantes viagens para o lado de lá. 

DENISE FRAGA é atriz, casada com o diretor Luiz Villaça e mãe de Nino, 13 anos, e Pedro, 12 e-mail: dfraga.colunista@edglobo.com.br

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Se eu tivesse mais alma pra dar, eu daria...

Foto: Souvenirs

Linha Do Equador

Djavan

Luz das estrelas
Laço do infinito
Gosto tanto dela assim
Rosa amarela
Voz de todo grito
Gosto tanto dela assim

Esse imenso, desmedido amor
Vai além de seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou, minha dor
Minha Linha do Equador
Esse imenso, desmedido amor
Vai além que seja o que for
Passa mais além do

Céu de Brasília
Traço do arquiteto
Gosto tanto dela assim
Gosto de filha música de preto
Gosto tanto dela assim

Essa desmesura de paixão
É loucura de coração
Minha Foz do Iguaçu
Pólo Sul, meu azul
Luz do sentimento nu

Esse imenso, desmedido amor
Vai além que seja o que for
Vai além de onde eu vou
Do que sou, minha dor
Minha Linha do Equador

Mas é doce morrer nesse mar de lembrar
E nunca esquecer
Se eu tivesse mais alma pra dar
Eu daria, isso pra mim é viver...


sábado, 20 de agosto de 2011

Intervenções Terapêuticas - Amy Winehouse, Michael Jackson e Cia, daria pra evitar?

Hoje eu vou postar um texto muito interessante escrito pelo meu grande amigo, Marcelo Gomes - Professor da PUC MG e Psicólogo Clínico. Vale à pena ler e refletir. Estou sempre relendo este texto... obrigada, Marcelo.


Amy Winehouse, Michael Jackson e Cia, daria pra evitar?

Marcelo Gomes*

Toda vez que penso nesses indivíduos talentosos e reverenciados que viveram vidas breves e infelizes, penso se seu talento dependia de uma personalidade patológica, ou se eles poderiam ser ao mesmo tempo brilhantes e felizes. O fato de haver outros sujeitos brilhantes e felizes não resolve essa questão, pois pode ser que alguns talentos só se desenvolvam mesmo com uma boa dose de miséria existencial. Mas tendo a pensar o contrário, acho que esses sujeitos poderiam ter uma vida menos miserável, talvez até felizes. E olha que são muitos: Michael Jackson, Elvis, Kurt Cobain, Elis Regina, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, e a mais recente, Amy Winehouse. Todos ao mesmo tempo modelos de excelência e devotados a um processo auto-destrutivo. E sempre penso: será que eles não tentaram uma psicoterapia? Penso isso porque tanto minha experiência pessoal quanto profissional me confirmam a enorme diferença que pode fazer uma boa psicoterapia. Acho que essa opinião vai na contramão do senso comum, que de forma geral quase nunca considera a possibilidade de uma terapia, e muitas vezes acha que é simplesmente uma perda de tempo e dinheiro. Já virou até um bordão meu, quando alguém comenta que fulano está muito mal por algum motivo: "mas fazer uma psicoterapia, nem pensar, né?"

É claro que não é rápido, nem barato (bem, às vezes até é), mas é impressionante como pode funcionar tanto com graves problemas existenciais quanto com pequenas neuroses do dia a dia. E sempre tem um que fala "mas eu (ou fulano, ou sicrano) já fiz e não adiantou nada". Aí eu penso: você vai num advogado, e ele não consegue te ajudar. Você nunca mais vai procurar um advogado, ou vai parar de acreditar no Direito? Se você não gosta do atendimento de um médico, ou não confia no seu diagnóstico, você desiste da Medicina?

Psicólogos são como todos os outros profissionais, podem não te ajudar da forma que você queria, ou no momento que você julga oportuno, ou podem ser incompetentes mesmo. Isso não invalida o benefício que uma psicoterapia pode trazer. Às vezes é necessário insistir mais um pouco. Sinceramente, já vi mudanças impressionantes, pessoas que transformaram toda sua experiência existencial, e nem sempre demora tanto assim. Obviamente, nem sempre funciona tão bem, e sou adepto de uma relação pragmática: se não está funcionando, melhor parar e tentar com outro profissional. Senão você pode insistir por dez anos e não fazer diferença nenhuma...
É óbvio que estou advogando em causa própria, sou um psicólogo clínico. Ao mesmo tempo, fico triste com a impressão que esse recurso é subutilizado e sub-avaliado socialmente. No entanto, medicamentos, auto-ajuda, esoterismo e processos meio paliativos de um fim de semana fazem muito sucesso. Prometem muito, mas realizam pouco. O Prozac (que já saiu de moda) não acabou com a depressão, O Segredo não deixou seus milhões de leitores ricos e felizes, e aquele curso vivencial parecia ter mudado sua vida, mas depois de um mês, quando o entusiasmo baixou, tudo voltou ao que era. Mas o dinheiro circulou, o mercado agradece.

Estou vendo agora um movimento interessante, patrocinado pelo ex-presidente THC (digo, FHC). O discurso antidrogas, que antes era assunto de segurança pública, agora é encarado como problema de saúde pública. Ou seja, vamos descriminalizar o uso, e tratar o usuário como doente. Assim como o alcoolista e até o tabagista. Sem entrar no debate polêmico se isso é doença ou não (há poucos anos atrás não era), a questão do sentido da droga, a problemática da personalidade, as relações familiares e o comportamento obsessivo são abafados pelo discurso medicamentoso, que por coincidência é muito rentável para laboratórios, médicos e clínicas de internação. Sem dúvida, da segurança para a saúde é um avanço, mas essa abordagem me parece simplista e parcial.

Mas, voltando ao início do tópico, esses artistas poderiam ter sido ajudados por uma boa psicoterapia? É uma pergunta impossível de ser respondida, pois o domínio do "se" é em última análise imponderável. Como dizia meu amigo Serginho, "SE minha mãe tivesse bigode eu teria dois pais" rs. Porém, depois de ver Meia Noite em Paris e Tudo Pode Dar Certo, fico com a impressão que o processo psicanalítico do Woody Allen vai muito bem! É claro que pode ser só uma impressão...

*Marcelo Gomes é Psicólogo, Especialista em Psicologia Clínica Fenomenológico-Existencial e Gestáltica. E-mail: mgpjrbh@yahoo.com.br.
Fotos: google